Made in Ribeirão Preto

Vinhos, azeites e queijos totalmente produzidos na cidade, um dia, associada apenas à cana-de-açúcar: esse é o projeto da Terras Altas Vinícola, cujas primeiras parreiras e oliveiras já crescem em direção a um futuro promissor.

Por Amanda Pioli

A paixão de José Renato Magdalena pelos vinhos, que, inclusive, o tornou um enófilo, aliada à sua visão empreendedora, acaba literalmente de florescer: em 10 hectares de terra, em meio a 700 hectares da Terras Altas Agropecuária, a qual, por dezenas de anos, só viu o cultivo de cana-de-açúcar, crescem as primeiras parreiras e oliveiras que logo serão a fonte de vinhos e azeites totalmente produzidos em Ribeirão Preto sob a marca Terras Altas Vinícola.
Isso mesmo! Nem o calor intenso ou o tipo de solo foram capazes de impedir o que, por muito tempo, pareceu apenas um sonho de Magdalena. O projeto, ainda surpreendente para muitas pessoas crentes que tais produtos são tipicamente europeus ou limitados ao sul do Brasil, se tornou possível graças a uma técnica inovadora de plantação e colheita, como explica o engenheiro agrônomo Ricardo Baldo, à frente do projeto da vinícola. “Chamamos esse sistema de ‘dupla poda’, que consiste, basicamente, em trazer o ciclo da uva do verão para o inverno. Fazemos alguns manejos operacionais e enganamos o metabolismo da planta com duas podas consecutivas, em momentos diferentes dos habituais”.
Essa técnica foi favorecida por uma mudança climática que vem ocorrendo nos últimos anos. Segundo pesquisas recentes da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), as temperaturas do sul brasileiro, por exemplo, são ideais para produção de vinhos brancos e espumantes – uma vocação que promete persistir por muitos anos ainda. Contudo, o clima tem feito com que a produção de vinhos tintos passe por uma fase de migração para o sudeste. “Com a dupla poda, conseguimos trazer a uva para o melhor momento do clima, que são os dias ensolarados, já que quase não temos chuva no inverno, as noites são mais frias e solo é seco. Assim, temos um cenário mais adequado, no qual a uva consegue fazer uma maturação mais completa”, explica Baldo.

Foto Zoro Seixas

José Renato Magdalena, idealizador da vinícola
Foto Marcio Javaroni/Toque de Letra Comunicação/Divulgação

O engenheiro também chama atenção para o solo roxo da propriedade, que deve despertar características únicas no sabor dos vinhos produzidos ali. “Assim como o clima, o solo tem muita influência na uva, então, imaginamos que ele será um diferencial para o nosso produto, uma vez que agregará um paladar diferente, especialmente se falando em tintos de Cabernet Sauvignon”. Além da espécie citada pelo engenheiro, a propriedade já possui plantada a Syrah, enquanto no próximo ano haverá Cabernet Franc.
A primeira colheita comercial da Terras Altas – uma experimental já ocorreu em 2018 − está prevista para o fim de julho, enquanto as garrafas inaugurais do vinho ribeirão-pretano devem ficar prontas no início de 2020. “Do dia em que começamos a investir no plantio das uvas até o vinho chegar às prateleiras, poderão ser contabilizados cerca de cinco anos. Cinco anos de investimentos, ansiedade e expectativas. Mas abreviar esse processo seria abrir mão da qualidade que queremos atingir. Quando entrarmos no mercado, nosso produto será de altíssima qualidade”.

Foto Divulgação

“O consumo de vinhos no Brasil vem crescendo anualmente, junto com uma mudança de paladar – já que antes era essencialmente de vinho de mesa. Os consumidores começaram a conhecer vinhos finos. Em Ribeirão Preto, o consumo per capta de vinho está muito próximo da capital paulista”, Ricardo Baldo, engenheiro agrônomo à frente da Terras Altas Vinícola | Foto Divulgação

Expansão econômica

O projeto Terras Altas não é apenas interessante do ponto vista turístico e de lazer. Ele possui um potencial para impactar economicamente a cidade, já que abraça áreas importantes de desenvolvimento, como a agropecuária. “Nosso objetivo maior com a vinícola é trazer mais uma oportunidade de negócio agropecuário para Ribeirão Preto. Não estamos perdendo nossa tradição de cana, uma vocação que deve se manter e nos rodeia, inclusive porque estamos em meio a terras que apresentam essencialmente essa cultura, mas queremos dar opções aos produtores regionais. Queremos difundir nosso sistema de produção. Somos um projeto aberto aos interessados”, explica Baldo.
Ele ressalta a viabilidade da plantação, que não demanda tanto espaço e, ainda assim, apresenta grande rendimento: “em apenas 10 hectares, devemos produzir quase 70 mil garrafas de vinho por ano”, prevê. Dessa forma, o projeto demonstra vontade em se tornar, também, parceiro de futuros produtores. E as oportunidades não são apenas para quem deseja produzir, já que toda a comunidade terá a seu serviço um turismo rural pouco desenvolvido por aqui.

Ricardo Balbo, engenheiro agrônomo
Foto Zoro Seixas

Vinícola boutique

A relação daquelas terras com o vinho ainda deverá ir muito além dos tintos e, possivelmente, do rosé (pensado para o clima de Ribeirão Preto), seguindo a vocação da região. Tendo eles como ponto de partida, a Terras Altas Vinícola possui uma proposta mais ambiciosa de criar um universo relacionado ao vinho, que futuramente agregará outros produtos fabricados no local: os azeites (cujo olival já está crescendo) e queijos de cabra da raça Saanen e de vaca Jersey.
Dessa forma, as terras se tornarão uma vinícola boutique e, portanto, mais uma atração de potencial turístico muito grande para a região, vislumbra o responsável. “Planejamos salas de degustação dos vinhos, um Wine Garden com uma paisagem deslumbrante e promoveremos cursos, como de harmonização. Também vamos produzir queijos artesanais”. Com os derivados de leite, a intenção é que os queijos de leite de cabra sejam da linhagem francesa, seguindo a mesma das uvas plantadas do local, enquanto o queijo de vaca apresente um sabor original e típico da sua terra natal: “buscamos uma receita que se traduza em um Terroir de Ribeirão Preto. Não queremos replicar um queijo Canastra, um Minas Padrão. Queremos uma receita que seja a cara de Ribeirão Preto”.
Por enquanto, a parte mais experimental do projeto e que requer constantes estudos são as oliveiras, visto que, segundo Baldo, sua plantação em clima quente é inédita em todo o Brasil. Ele explica que estão sendo trabalhados protocolos nutricionais para detectar qual será o melhor para proporcionar um bom florescimento e frutificação da espécie. Para tal, foram plantadas três variedades – italiana, grega e espanhola.

Foto Divulgação

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